Oito e meio – Franciso Fellini (1963)

8 1.2 FelliniDifícil não chover no molhado quando se fala de “Oito e meio”, um dos filmes mais conhecidos do diretor italiano Francisco Fellini e considerado um marco na história do cinema. Premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1964, o filme é reconhecido pela crítica como um dos maiores clássicos de todos o tempos.

Antes de mais nada, é preciso entender que “Oito e meio” se insere em um momento de sequência do movimento neorrealista italiano. O neorrealismo italiano foi uma reação dos cineastas no período pós-guerra, fazendo filmes de cunho essencialmente documental, opondo-se ao cinema de ficção. Como principais expoentes do movimento, temos Roberto Rosselini (Roma, Cidade Aberta), Vittorio de Sica (Ladrões de bicicleta) e Luchino Visconti (La terra trema). Nesse contexto, esses diretores tinham a preocupação da representação objetiva da realidade social.

No contexto dos anos 50, o neorrealismo italiano já está perdendo um pouco sua força. Seu caráter panfletário já não motiva tanto engajamento dos cineastas. É nesse contexto que se insere “Oito e Meio”: no cenário de expansão da televisão como mídia dominante. Os cineastas investem no cinema escapista para fidelizar seu público. Em reação a esse tipo de cinema, se destacam tanto Fellini quanto Michelângelo Antonioni (Blow up), que buscavam examinar a subjetividade de seus personagens e o drama existencial.

Nesse cenário, é compreensível que “Oito e meio” não seja um filme de fácil assimilação. Em sua primeira cena, o personagem principal, vivido por Marcelo Mastroiani, é sufocado em um veículo preso em um engarrafamento, observado por todos os motoristas que não esboçam nenhum tipo de reação. Logo, subentende-se que a cena não existiu realmente: é um sonho da mente do personagem. A narrativa do filme segue assim, entrecortada, combinando memórias e realidades vividas pelo personagem.

Para deixar a abstração ainda maior, o personagem é um cineasta que entra em crise por não conseguir terminar seu filme. Ou seja, ainda existe a brincadeira da meta-linguagem, do filme dentro do filme, da referência ao cinema, o tempo todo. O próprio Felini reconheceu que o caráter do filme é essencialmente auto-biográfico. Em uma das cenas, o personagem do produtor cobra o personagem do cineasta, dizendo que o roteiro é uma sequência de “episódios totalmente gratuitos, e que nem mesmo serve para uma obra de vanguarda, embora tenha todas as deficiências do vanguardismo”. Fellini brinca com o expectador, pois “Oito é Meio” é exatamente assim: uma colcha de retalhos.

Portanto, “Oito e Meio” é um filme de ruptura com o neorrealismo italiano. É completamente inovador em sua estrutura, quebrando os paradigmas do cinema feito até então. E não apenas em estrutura narrativa: o filme critica a Igreja Católica, o moralismo das relações de casamento, as relações extraconjugais e também a indústria cinematográfica. O legado do filme se consolida na expressão “felliniano”, que é utilizada para expressar algo onírico, ou em outro sentido, extravagante, exagerada, como em sua cena final, em que o personagem brinca com os atores e palhaços nos dizeres “a vida é uma festa”.

Segue uma das cenas mais divertidas do filme, onde o personagem do cineasta Guido imagina um harém com todas as mulheres de sua vida:

Ficha técnica

Anúncios

Tags:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: