Comparação entre filmes da Atlântida e da Vera Cruz

Os filmes da Atlântida, produtora fundada em 1941 por Moacyr Fenelon, ficaram marcados pela sua irreverência e sucesso de público. As chanchadas – assim denominadas pejorativamente por serem consideradas obras mal acabadas e popularescas – eram filmes divertidos, sem temáticas profundas, geralmente humorísticos que ressaltavam a brasilidade, como “Carnaval Atlântida”.

O filme “Não adianta chorar” (1947)  consagrou a maior dupla de cômicos de todo o cinema brasileiro: Oscarito e Grande Otelo. Até o final dos anos 40, os filmes da Atlântida tentavam, como podiam, “fazer cinema brasileiro”, apesar da carência de recursos e a maioria dos equipamentos de segunda mão. Em 1947,  Severiano Ribeiro, representando uma das maiores empresas de exibição do país, associou-se à Atlântida, na parceria de produção/distribuição.  Severiano não tinha preocupação com a qualidade técnica dos trabalhos: queria ampla quantidade de filmes para exibir. Isso garantiu às chanchadas a sobrevivência por, no mínimo, mais 15 anos.

Apesar de sofrerem com o desprezo da crítica (e principalmente, mais tarde, pelo movimento do Cinema Novo) que argumentavam que as chanchadas eram cópias mal-acabadas de filmes norte-americanos, os filmes eram, na verdade, paródias, muitas vezes satirizando o cinema hollywodiano. Podemos notar no filme “Nem Sansão, nem Dalila” uma sátira, uma comédia picaresca denunciando com ironia a situação do país.

O público adorava as chanchadas: Grande Otelo, Oscarito, Zé Trindade, Dercy Gonçalves arrancavam risos com suas perfomances, José Lewgoy era o malvado vilão, e Eliana dançava mostrando o gingado da mulher brasileira. No documentário “Assim era a Atlântida”, são mostradas cenas dos grandes sucessos da Atlântida, com depoimentos de seus grandes artistas, que comentam com saudade o quanto se divertiam em fazer cinema em uma época de muitas dificuldades. O improviso era uma constante, os cenários,  completamente mal-acabados, mas feitos com as condições que eram possíveis na época. Os próprios movimentos de câmera não eram ousados: um grande plano geral, onde os atores improvisavam, saiam e voltavam do quadro, dançavam, lutavam, sem preocupação com o rigor técnico.

Já no período seguinte, nos anos 50, a época era de efervescência cultural. Surge uma forte preocupação com o conceito de identidade nacional: os artistas se dão conta de que, mais que produzir filmes, o cinema deveria ter um papel social. Nesse contexto surge a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, com a intenção de fazer um filme industrial, com qualidade técnica e a preocupação com uma linguagem. Cresce o cinema autoral, com uma proposta de refletir o povo brasileiro. A Vera Cruz, produtora paulista, retrata as profundas mudanças que a cidade estava vivendo nos anos 50. É o período de maior prosperidade financeira do país, com a formação de uma elite urbana forte, que se torna um excelente mercado para esse tipo de produção.

A Vera Cruz, liderada pelo engenheiro italiano Franco Zampari e pelo industrial brasileiro Francisco Matarazzo Sobrinho, começou como uma brincadeira, como eles mesmo disseram: ” uma brincadeira de burgueses”. O MASP, Museu de Arte de São Paulo, tinha sido inaugurado pelo dono do monopólio da comunicação, o controverso Assis Chateubriand. Ele convida para palestrar Alberto Cavalcanti, cineasta famoso na Inglaterra e França, que é convidado para ser produtor-geral da Companhia Vera Cruz, que traz o que há de mais inovador em cinema para a nova companhia, além de todo um modo de pensar cinema. Ele contratou técnicos estrangeiros para as principais funções, e sofreu severas críticas dos realizadores da época ( pois a Vera Cruz tinha a essencial preocupação de “fazer o cinema brasileiro”), o que acarretou posteriormente no seu afastamento, para se envolver em outros projetos como a fundação de sua própria companhia, a Kino Filmes e o INC, o Instituto Nacional de Cinema.

A grande contradição da Vera Cruz era que, apesar da preocupação com o cinema brasileiro, seus filmes não evidenciavam isso, nem nos temas, nem na linguagem. Não passavam de imitação das produções estrangeiras. Como exemplo, temos o filme “O Cangaceiro”. Premiado inclusive no exterior, com a palma de ouro em Cannes como melhor filme de aventura, conta a história do capitão Galdino (uma representação de lampião, o cangaceiro), que é o grande mandante de um bando de cangaceiros, que, apesar de “impiedoso” tem um “coração bom”. Ou seja, o Cangaceiro nada mais é do que uma adaptação dos filmes norte-americanos de “western”, só que representados pela figura do caubói brasileiro, o cangaceiro, que mesmo sendo um fora-da-lei tem uma moral, um sentimento de justiça, o “bom selvagem”.

A Vera Cruz terminou na falência por má administração de seus realizadores. Por falta de uma unidade na realização/distribuição e os altos cachês pagos aos atores e custo dos recursos refinados, Zampari foi levado a entregar a distribuição para a Columbia, que além de exigir um outro final para o filme – a morte dos bandidos – se aproveitou do estrondoso sucesso que o prêmio de Cannes trouxe, reproduzindo o filme intenacionalmente como “Os bandidos”.

A falência da Vera Cruz repercutiu em revolta no mercado de realização no Brasil. Era mais do que necessária uma política para promover o nosso cinema. Calorosos debates se seguiram, até o surgimento do próximo movimento, que é o Cinema Novo.

Bibliografia de apoio:

Moreno, Antonio. Cinema Brasileiro – Histórias e Relações com o Estado. Editora Eduff, 1999.

Saiba mais

Assista a filmes da Vera Cruz gratuitamente na internet

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